Crônicas do ônibus


04/01/2011


Freitas

Ele espera. Ônibus cheio não dá. Ainda mais em dia de chuva, quando todas as janelas (pequenas, e normalmente em conflito com os bancos)

estão fechadas. Espera, espera, espera. Passa a moça bonita com guarda-chuva fashion, passa o moço com guarda-chuva quebrado, passa

o cachorro sem guarda-chuva. Finalmente um ônibus chega. Sem lotação, ele pega.

O preço ainda não aumentou. Questão de dias para isso acontecer. Senta-se logo para recomeçar a ler seu livro. É o melhor amigo quando

se está num ônibus, melhor até do que a possível música vinda pelo rádio do celular. Mas eis que, no meio do caminho, não vê uma pedra e sim

um velho amigo de trabalho, afastado por ordens de chefias que vão e vem. A subida do fanático coritibano no mesmo ônibus é uma alegre surpresa,

saudada pela tecnologia, através de uma foto dos dois, via celular. Se no futebol 2010 a alegria foi grande para os dois, o início de 2011 começa com

este encontro feliz e inesperado. Um, comemorando 8 títulos num ano só: paulista, copa do Brasil e, graças a CBF, 6 brasileiros. O outro, após o

sofrimento do rebaixamento, alegre pela volta do Coritiba à primeira divisão. Mas o ponto chega, e esse encontro não marcado acaba interrompido.

Fica marcado na lembrança, mais confiável do que a tecnologia, já que, até agora, a foto prometida não chegou no celular...

Escrito por blogdocoletivo às 10h26
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23/12/2010


Jean Pierre Jarrier

O Barra Funda está parado no semáforo.

Ainda bem, porque o passageiro, meio esbaforido, chegou ao ponto naquele exato momento. Fez sinal.

Na partida do semáforo, já notou algo estranho. O ônibus foi de 0 a 100 em menos de 5 segundos.

Claro que o motorista não parou exatamente no ponto, mas bons metros à frente. Subiu e foi para o fundo.

Ao contrário dos dias anteriores, o caminho estava livre.

Prá quê? Do fundo, sacolejando e sendo feito de peão em pleno giro, viu incorporado ao volante não um motorista de ônibus, mas o próprio Jean Pierre Jarrier...

Jarrier era piloto da Shadow, nos anos 70. Se Jack Stewart era o escocês voador, Jarrier era o interplanetário.

Pisava fundo, pisava tudo. Pisava tudo o que podia e o que não podia.

Sua Shadow, obviamente toda preta, deixava as outras equipes a uma, duas voltas de diferença.

E ele pisando, pisando, pisando. Até que o motor ia pro brejo, o carro ia pro acostamento, e a vitória ia pro espaço.

Mas como nossa imaginação ia prá lua vendo aquele cavaleiro arrojado...

Parada no pensamento. Parada forçada, porque o motorista fez a curva com tamanha velocidade, e tão aberta,

que se fosse desenho animado veríamos não o passageiro, mas o pateta voando no meio do corredor,

com o braço enorme se esticando ainda mais enquanto a mão segurava com tudo na barra alta de ferro.

Do grande prêmio Brasil, da pista de Interlagos, ele voltou imediatamente para a Lapa. Lapa? Já?

Olhou para o relógio. 17 minutos. Foi o tempo que aquele Jarrier do coletivo demorou (demorou?) para ir do ponto a seu destino..

Deu o sinal demoradamente e com antecedência.

O ônibus parou. A bons metros do ponto, claro.

E ele desceu, aliviado e adiantado...

Escrito por blogdocoletivo às 13h07
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T.P.M.

TPM

 “Aquele cara é muito chato, heim?”

“O que?”

“Aquele cara, teu truta, é um mala, heim?”

Um calor infernal, um trânsito que não anda. Melhor não dar bola. Mas o cobrador é insistente.

Tava demorando prá falar alguma coisa. Aproveitou o congestionamento da semana de natal prá soltar o veneno.

 “Aquele cara é nojento. Se ele tomasse no meu copo eu parava de beber na hora!”

 Um calor dos diabos, um sol prá cada um, e o motor funcionando a toda ali bem do lado do ouvido.

Melhor ouvir isso do que ser surdo, ele pensa. Mas é melhor não pensar no colega. Melhor dirigir.

“Sabe que aquele cara ainda vai levar uma bifa, né? É muito folgado. Onde foi que você conheceu ele, heim?”

“Era cobrador como você...” Respondeu com um sorriso nos lábios. Dessa vez a vingança não demorou.

“Será que é problema de cobrador?” Engatou a terceira e passou pelo semáforo que já ameaçava o amarelo.

 “TPM!”

“O que?”

“TPM!”

O que é isso?”

Ele sabia o que era, mas viu que naquele ônibus quase vazio havia uma senhora sentada bem na frente do cobrador.

Como não segura a língua, o colega continuou no assunto, e agora era pego pela teia de aranha do motorista.

“TPM, tudo fechado...”

“TPM é isso?”

“É, sinal vermelho...”

“Mas não é uma sigla?”

Agora era o colega quem pedia um pouco de paz. Paz que ele não teve no trajeto mais difícil daquela interminável linha

Uma epopéia de marchas, acelerações, brecadas, paradas, na ciodade 1, na cidade 2, na terceira cidade.

E o ponto final que não chega nunca.

E o matraca-trica querendo ser engraçadinho com todas as moçoilas que subiam no ônibus. E falando, falando, falando.

E ele lá, cuidando prá parar em cada ponto, cuidando prá não atropelar o pedestre folgado que resolveu atravessar a faixa ainda com sinal verde.

Cuidando prá não bater em nenhum carro onde o motorista usa uma mão prá segurar o celular e a outra prá fumar...

“É uma sigla, não é?”

“Não sei não...”

“Ué, tu fala e não sabe? To falando. Será que é mal de cobrador?” Dessa vez ele virou o pescoço e olhou bem prá senhora que compreendia tudo...

Nunca foi tão gostoso chegar ao ponto final. Entrou de primeira. Nem precisou ajeitar o ônibus – daqueles que parecem feitos na Finlândia, cheios de vidros, que esquentam até o inferno no verão.

Abriu a porta prá senhora descer e mandou. “TPM, meu filho! Tensão Pré Menstrual, mas pode ser também Tontão Perturbando Motorista...

A senhora não se escandalizou. Apenas riu, descendo pela porta da frente e agradecendo: “obrigada, viu, tenha uma ótima tarde...”

Não precisou nem mostrar a carteirinha de idosa...

Escrito por blogdocoletivo às 13h02
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